O Legado do Jiu-Jitsu Brasileiro: Uma Reflexão sobre as Raízes e as Regras da Academia Gracie
Em um evento que remete às profundas raízes do Jiu-Jitsu brasileiro, os professores Pedro Valente e Robert Drysdale se reuniram em um debate notável no dia 19 de novembro de 2025. O encontro, transmitido pelo podcast Connect Cast, proporcionou um mergulho rico e elucidativo na história centenária do Jiu-Jitsu no Brasil, partindo de seus primeiros passos em Belém do Pará até as recentes lutas que têm moldado o cenário atual da arte marcial.
Os professores, ambos faixas-pretas e conhecedores da filosofia e da trajetória do Jiu-Jitsu, compartilharam insights e experiências que transcenderam as técnicas lutadas e tocaram em aspectos culturais e sociais que envolvem a prática. Parte desse diálogo foi particularmente intrigante, quando resgataram um artigo de jornal de 1954, que trazia consigo um acervo de informações valiosas sobre as regras de um torneio interno realizado na famosa academia Gracie, localizada na Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.
Um Tesouro do Passado: As Regras do Torneio Interno
O torneio documentado no artigo estava programado para categorizar os competidores em cinco faixas de peso, que variavam de menos de 49 kg até acima de 81 kg. A relevância desse regulamento reside em um detalhe que poucos esperariam: a introdução de um sistema de pontuação, um conceito que até aquela época era amplamente contestado pela família Gracie, especialmente pelos patriarcas Carlos e Helio Gracie.
Tradicionalmente, os Gracie defendiam que as lutas deveriam ser resolvidas através da finalização ou desistência, e não por pontos ou julgamentos. Para eles, um empate significava que a luta não havia provado nada e, assim sendo, a disputa não teria um verdadeiro vencedor. Esse princípio foi testado em 1955, com uma das lutas mais emblemáticas do Jiu-Jitsu, que envolveu Carlson Gracie e Waldemar Santana. O evento atraiu uma plateia fenomenal, com quase 40 mil espectadores lotando o Maracanãzinho, mostrando o apelo massivo que essa arte marcial tinha na época.
Carlson, em um esforço de vingar a derrota de seu tio Helio, enfrentou Waldemar em uma luta que perdurou sem pontuação ou jurados, resultando em um empate. Apesar de ter dominado a luta com quedas e posicionamentos, a ausência de um sistema de avaliação formal deixou o resultado indefinido. Essa experiência moldou ainda mais a perspectiva da família Gracie sobre os torneios, sublinhando a distinction entre o orgulho técnico e o resultado oficial.
A Evolução das Regras: Uma Análise Comparativa
Ao debater as regras do torneio de 1954, Valente e Drysdale revelaram nuances que podem não ser imediatamente reconhecidas. O regulamento exibia semelhanças com as regras do judô da época, atribuindo pontos a quedas que não fossem perfeitas, o que levanta várias questões. O que essa pontuação significava na prática? Seria uma tentativa dos Gracie de modernizar o sistema de competições, uma estratégia para atrair praticantes do judô ou, talvez, uma forma de destacar a importância das quedas em suas lutas?
Os tópicos discutidos durante o podcast servem como um convite à reflexão não apenas sobre as regras em si, mas sobre como essas regras moldam o estilo de luta dos competidores. Neste contexto, os professores apresentaram uma lista de regras que ilustram a filosofia daquela época:
- Lutas preliminares: Compostas por dois rounds de cinco minutos, enquanto semifinais e finais contariam com três rounds.
- Queda clássica: Um ponto para uma queda que seguisse as exigências técnicas estabelecidas.
- Queda imperfeita: Meio ponto, reconhecendo a tentativa de derrubar o oponente mesmo que não tenha sido realizada com a técnica desejada.
- Iniciativa de ataque: Um ponto adicional para aqueles que se mostrassem proativos na luta, engajando o oponente.
- Montada: Um ponto por conseguir estabilizar essa posição, crucial no Jiu-Jitsu.
- Imobilização por mais de 30 segundos: Um ponto, reafirmando a importância do controle sobre o adversário.
- Pegada pelas costas: Um ponto, refletindo a busca por posições dominantes.
- Fuga do ringue: Um ponto negativo, enfatizando o respeito pelas regras do espaço de luta.
Esses elementos levaram os debatedores a ponderar sobre a adaptabilidade e evolução das regras ao longo do tempo, questionando se o formato atual do Jiu-Jitsu deve continuar a evoluir ou se deve retornar às raízes que valorizavam a finalização.
Reflexões Finais: O Impacto Cultural do Jiu-Jitsu
Essa discussão rica e detalhada não apenas promoveu um olhar sobre o passado, mas também lançou luz sobre as bases que sustentam o Jiu-Jitsu hoje. A história da luta é, em essência, uma vitória coletiva, que não pertence apenas aos Gracie, mas a todos que contribuíram para a disseminação e evolução da arte marcial ao longo dos anos.
Os professores Valente e Drysdale enfatizaram a necessidade de uma visão mais ampla, onde a compreensão do Jiu-Jitsu não se limita apenas às regras ou às técnicas, mas se estende ao papel que a disciplina desempenha na sociedade. Afinal, em sua essência, o Jiu-Jitsu é uma forma de autodefesa, uma ferramenta que empodera indivíduos, independente de gênero ou origem.
A arte marcial continua a ser uma força unificadora, conduzindo pessoas em direção à autoconfiança, ao respeito e à disciplina. Assim, refletir sobre o passado, como ocorreu no debate do Connect Cast, é essencial não apenas para entender a disciplina, mas também para inspirar as futuras gerações que desejam trilhar esse caminho.
À medida que o Jiu-Jitsu avança e se transforma, as lições do passado ressoam com relevância, oferecendo ensinamentos que transcendem a mera técnica de luta. A história da família Gracie, suas lutas, suas conquistas e, especialmente, suas derrotas, continuam a ecoar, lembrando a todos nós do poder e da riqueza cultural que o Jiu-Jitsu brasileiro representa.
Seja na busca por um cinturão, na prática de um movimento ou na filosofia que acompanha a arte, a história do Jiu-Jitsu é uma tapeçaria que continua a ser tecida por aqueles que se dedicam e respeitam suas raízes, enquanto olham para o futuro, prontos para enfrentar novos desafios.


