Técnico Kyvann Gonzalez gera polêmica com nova política de pagamentos: atletas enfrentam bloqueios por atrasos

Técnico Kyvann Gonzalez gera polêmica com nova política de pagamentos: atletas enfrentam bloqueios por atrasos

A Política de Atrasos na Bodega BJJ: Um Debate Sobre Valor, Compromisso e Respeito no Jiu-Jitsu

O universo do Jiu-Jitsu é repleto de discussões e debates que transitam entre as superfícies culturais e as estruturas mais profundas do treinamento. Dentre esses tópicos, o atraso nas aulas é um dos mais persistentes e controversos, engajando alunos e instrutores em acaloradas discussões que vão além da simples questão da pontualidade. Uma nova camada a essa discussão foi acrescentada pela recente política de atrasos estabelecida por Kyvann Gonzalez, proprietário da Bodega BJJ.

Gonzalez, em sua decisão, traça um claro delineamento entre seus membros pagantes e aqueles que participam das aulas gratuitas. Ele argumenta que os pagantes têm liberdade para chegar quando desejarem, pois a academia é, de fato, um serviço que eles financiam. Por outro lado, aqueles que fazem parte das sessões gratuitas enfrentam consequências se não cumprirem o horário. "Se você é um membro pagante, venha quando quiser. Se você não está pagando, a pontualidade é o preço da entrada", afirmou Gonzalez em sua participação no podcast “Jits and Giggles”.

Essa afirmação desencadeou um debate que atinge um ponto sensível no Jiu-Jitsu: estamos lidando com a realidade do atraso como um aspecto corriqueiro da vida adulta, ou estamos permitindo que tais comportamentos acabem prejudicando o desenvolvimento de todos os integrantes da sala? A proposta de Gonzalez não é meramente punitiva; de fato, é uma resposta a experiências passadas, onde sua abordagem inicial de severidade e exigência de pontualidade absoluta resultou em um número reduzido de alunos.

Uma Evolução Necessária

Gonzalez revela que, em seus primeiros dias como proprietário da academia, ele adotou uma mentalidade rígida, insistindo que todos chegassem na hora certa. Esse posicionamento levou à perda de vários alunos, que reagiam negativamente às suas reclamações sobre atrasos. “No começo, perdemos muitos membros porque eu dizia: ‘Você está atrasado. Pare de se atrasar’”, compartilhou. Ele percebeu que essa postura, embora inicialmente satisfatória, não era sustentável na prática. “Eles diziam: ‘Eu pago para estar aqui’, e eu rebatia, ‘Não, você costumava fazer isso.’”

Com o tempo, ele entendeu que a linha entre exigências e a boa relação com os alunos precisava de um ajuste. “A minha nova política evoluiu para algo mais transacional: pague e você terá flexibilidade; não pague, e aparece como se fosse um favor que a academia está fazendo a você”, explica.

Além disso, sua parceira e colega de treino, Vanessa Comeau, apoia essa nova estrutura, destacando que o respeito mútuo e as expectativas de comprometimento são essenciais para um bom ambiente de treino. Essa política acende um alerta sobre um comportamento que muitos instrutores consideram prejudicial.

A Realidade do Tarde

Os treinadores não são simplesmente inflexíveis ou sedentos de autoridade quando expressam descontentamento por atrasos. A realidade é que as chegadas tardias criam complicações significativas dentro da dinâmica de uma sala de treinamento. Quando um aluno entra após o início da aula, o fluxo de atividades já em andamento tende a ser interrompido. Exercícios que demandam coordenação e sincronia entre parceiros de treino são prejudicados. A pessoa que chega atrasada muitas vezes deve ser rapidamente atualizada sobre o que está acontecendo, o que pode prejudicar não apenas seu próprio aprendizado, mas também o dos outros.

Em um esporte tão técnico e físico quanto o Jiu-Jitsu, ser “frio e apressado” pode resultar em lesões. Gonzalez não está ignorando os desafios da vida moderna, reconhecendo que obrigações como trabalho e família podem interferir nas rotinas de treino. Entretanto, sua frustração recai sobre aqueles que frequentemente não demonstram comprometimento em comparecer no horário.

Implicações Comerciais: O Valor do Tempo

A política de atrasos também toca em uma questão crucial que Gonzalez busca reiterar: as aulas gratuitas não são "grátis" no sentido absoluto. Uma academia opera com despesas contínuas de aluguel, seguro, limpeza e manutenção de equipamentos, além do tempo investido pelos treinadores. Durante a conversa, Gonzalez compartilhou sua experiência ao oferecer sessões de treinamento matinais gratuitas e, em uma tentativa de engajamento, testou a disposição dos alunos ao implementar um evento de aulas pop-up por um custo reduzido. A resposta foi decepcionante: “Nenhum deles apareceu”, afirmou.

Do ponto de vista de Gonzalez, a falta de comprometimento para comparecer a aulas gratuitas é um indicativo de desvalorização do que está sendo oferecido. “Quando uma academia oferece treinamento gratuito e as pessoas não conseguem respeitar o horário, isso não é simplesmente uma vida adulta ocupada, mas falta de apreço”, argumenta.

O Contrato Social no Treinamento

Debater se a política de atrasos é justa ou não é apenas a ponta do iceberg. O que essa situação levanta é uma questão mais ampla sobre o contrato social que existe na prática do Jiu-Jitsu. Para os membros pagantes, a expectativa é que o compromisso seja respeitado de acordo com a prática e frequência. Para aqueles que participam de sessões gratuitas, Gonzalez destaca a necessidade de que o pagamento seja demonstrado através de comportamento adequado – pontualidade, consistência e respeito à prática.

Essa discussão continua a ressoar não só no contexto da Bodega BJJ, mas também em academias ao redor do mundo. Conversamos com outros instrutores que compartilham experiências semelhantes, todos reconhecendo que a pontualidade é, em última análise, uma questão de respeito pelo tempo e esforço dos colegas.

Conclusão

É evidente que a política de atrasos implementada por Kyvann Gonzalez é mais que uma simples regra; ela reflete uma visão mais abrangente sobre o valor do tempo, compromisso e respeito no Jiu-Jitsu. Essa abordagem ocorreu em resposta a desafios reais enfrentados no ambiente de treino e não se destina a desvalorizar as vidas complicadas dos alunos, mas sim a promover uma cultura de compromisso e respeito mútuo.

No final das contas, o Jiu-Jitsu é uma atividade que exige não apenas habilidade técnica, mas também dedicação e respeito. A pontualidade é uma dessas expressões de comprometimento que, se ignorada, pode acarretar uma série de consequências que afetam o grupo como um todo. O que a política de Gonzalez ilustra é a importância de entendermos que, em um espaço colaborativo, o tempo de cada um tem igual valor e merece ser respeitado.

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