O Jiu-Jitsu Brasileiro: Um Debate Sobre a História, a Legitimidade e o Futuro da Arte Marcial
Nos últimos tempos, a prática do Jiu-Jitsu Brasileiro tornou-se motivo de debates acalorados entre praticantes, historiadores e amantes do esporte. Recentemente, o renomado competidor e historiador, Robert Drysdale, levantou uma questão que coloca em xeque um dos pilares da narrativa histórica do Jiu-Jitsu: a data de 1925, frequentemente associada à chegada do mestre Mitsuyo Maeda ao Rio de Janeiro, como o ponto de origem da arte marcial no Brasil.
Um Aniversário Contestado
A celebração do centenário do Jiu-Jitsu Brasileiro, que ocorreu recentemente em um evento prestigiado no Brasil, contou com a presença de figuras ilustres como Rorion Gracie e representantes do governo, que discursaram sobre a importância cultural da arte marcial e a sua evolução no país. Contudo, este panorama festivo foi ofuscado pela provocativa afirmação de Drysdale, que desafiou a noção comum de que “o Jiu-Jitsu começou em 1925”, sugerindo que, na verdade, o esporte que conhecemos hoje é muito mais jovem e passou por uma transformação substancial a partir de 1975.
“Essa data de 1925 está incorreta” afirma Drysdale, e essa declaração desagrada a muitos. A paixão pelo Jiu-Jitsu está enraizada em linhagens, em histórias que criam uma conexão emocional com a prática, algo que torna a discussão sobre a verdadeira origem da arte ainda mais delicada. Drysdale, por sua vez, defende sua posição com base em documentação e pesquisas, mostrando que a linha do tempo associada aos Gracies e ao desenvolvimento do Jiu-Jitsu é, na verdade, muito mais complexa do que é frequentemente apresentada.
A Narrativa dos Gracies e a Data de Inauguração
Um dos principais argumentos de Drysdale repousa em declarações atribuídas a Hélio Gracie, que, segundo o historiador, afirmou que nunca teve contato direto com o Jiu-Jitsu antes de assistir Carlos Gracie competir, algo que teria acontecido por volta de 1929 ou 1930. Além disso, a inauguração da primeira academia Gracie em 1931 é ressaltada como um marco significativo na história do Jiu-Jitsu. Segundo Drysdale, isso representa um indício mais concreto do que a assertiva simplista de que o simples desembarque de Maeda no Brasil deu origem à arte marcial.
“Não estou diminuindo a importância de Maeda, mas a história é muito mais confusa. Existe um emaranhado de escolas de judô e um contexto mais amplo de artes marciais brasileiras que contribuíram de forma significativa para o que hoje conhecemos como Jiu-Jitsu Brasileiro”, explica Drysdale. Ele não nega a importância da família Gracie nesse processo, mas argumenta que os Gracies não podem ser vistos como o único ponto de partida.
A Evolução e a Revolução de 1975
No entanto, a maior provocação de Drysdale reside na sua afirmação de que foi em 1975 que o Jiu-Jitsu passou por uma transformação fundamental. Na visão do historiador, a prática que os Gracies estavam fazendo na década de 1970 resolvia-se em algo muito mais próximo do judô no solo do que a competição que se observa hoje. Na sua opinião, uma mudança crucial nas regras de competição nesse ano alterou completamente os incentivos dos praticantes e, consequentemente, redirecionou a evolução do Jiu-Jitsu para um formato baseado em pontos.
“Isso muda tudo. Com essa mudança, a direção da arte foi totalmente alterada”, afirma Drysdale de maneira assertiva. Assim, ele propõe que o que muitos consideram como o aniversário do Jiu-Jitsu Brasileiro moderno deve ser mais próximo dos 50 anos do que dos 100. Para ele, a contagem do tempo no esporte deve também ser reconsiderada sob a nova luz das regras que moldam a prática.
A Controvérsia dos Cintos e a Questão da Legitimidade
Portanto, enquanto Drysdale desafia a linha do tempo que fundamenta a história do Jiu-Jitsu, a anedota do faixa azul comprada por US$ 9,99, contada pelo veterano havaiano de MMA Ron Jhun, oferece outra visão sobre a complexidade da legitimidade no Jiu-Jitsu. Jhun recorda-se de ter participado de um torneio promovido por Relson Gracie no Havaí, onde sua trajetória de treinamento foi baseada em vídeos, sem qualquer conexão oficial com uma academia. Quando questionado sobre sua faixa, foi direto: “Eu comprei. Comprei na loja Casey Martial Arts”.
Jhun provou seu valor ao vencer nas categorias de peso e absoluto, mas a legitimação de sua faixa azul não ocorreu por meio das tradicionais trajetórias de graduação. Ele simplesmente adquiriu a faixa em uma loja. Mais tarde, John Lewis, um dos primeiros faixas-pretas não brasileiros, acabou por lhe conceder o selo de validade ao afirmar que ele era, de fato, um legítimo faixa azul, mostrando que, para muitos, a legitimidade vai além de um cinto.
A Confluência das Narrativas: Legitimidade e Identidade no Jiu-Jitsu
Essas histórias se entrelaçam e conduzem a uma pergunta inevitável: quantos anos realmente tem o Jiu-Jitsu? Mais importante ainda, quem tem a autoridade para decidir os parâmetros da legitimidade na prática?
A controvérsia em torno do "aniversário" do esporte e relatos como o de Jhun têm mostrado que a discussão sobre legitimidade vai muito além do que é visto no tatame. É um tema que é constantemente debatido, reescrito e renegociado. Há muitos elementos que, em última análise, não são apenas sobre a técnica ou a disciplina, mas sobre a identidade coletiva dos praticantes e como essa identidade está ligada à evolução da arte marcial.
Conforme o Jiu-Jitsu Brasileiro continua a se desenvolver e se expandir não apenas no Brasil, mas internacionalmente, é inevitável que seu próprio legado e definições continuem a ser questionados. Enquanto essa rica tapeçaria de histórias e legados é bordada por diversas narrativas e personagens, a verdadeira essência do esporte pode muito bem estar na busca pela compreensão e pela evolução contínua.
Conclusão
Em um mundo onde as artes marciais são frequentemente vistas sob uma lente de rivalidade e disputa de status, o debate levantado por Robert Drysdale e as histórias de pessoas como Ron Jhun reforçam que na prática de Jiu-Jitsu Brasileiro, a legitimidade não é uma conquista simplesmente por mérito técnico, mas sim uma batalha constante por reconhecimento e narrativa. Ao final, o futuro do Jiu-Jitsu pode depender não só de suas regras e competições, mas da forma como sua história é contada e recontada através das gerações.


