O “Puxar para a Guarda” no Jiu-Jitsu: Uma Defesa Necessária
Introdução
Nos últimos anos, o hábito de "puxar para a guarda" no Jiu-Jitsu tem sido alvo de críticas contundentes, especialmente em ambientes virtuais e nos círculos das artes marciais. Essa prática, que consiste em levar o adversário ao chão ao invés de tentar ficar em pé, tem gerado debates acalorados sobre sua eficácia e relevância nas artes marciais. Especialmente entre os críticos, a perspectiva prevalente é de que essa estratégia é um sinal de uma abordagem que se distancia da realidade de uma luta. No entanto, essas avaliações costumam ser simplistas e desconsideram o histórico e a funcionalidade dessa técnica no contexto das lutas.
Críticas e Mal-entendidos
A crítica a essa prática não é recente. Muitos praticantes de outras modalidades esportivas, como o wrestling e o judo, frequentemente descrevem o ato de puxar para a guarda como uma prática que denota fraqueza ou falta de habilidade, alegando que essa estratégia é uma forma de evitar um confronto efetivo. Esses críticos argumentam que a guarda, especialmente em um cenário de combate, não só abandona o ideal de auto defesa como também apresenta uma abordagem que pode ser considerada antitética às artes marciais em si.
Ralek Gracie, um dos integrantes da célebre família Gracie, reconhecida como pioneira do Jiu-Jitsu brasileiro, contesta essa visão de maneira eloquente. Em declarações recentes, Gracie enfatiza que essa opinião é não apenas equivocada, mas revela uma compreensão superficial sobre o propósito do trabalho de guarda. Para Gracie, a linha de pensamento que ridiculariza essa técnica está profundamente errada.
A Realidade da Luta
Para entender a posição do Jiu-Jitsu e a eficácia do “puxar para a guarda”, é essencial considerar o cenário de um confronto físico. Gracie aponta que ser derrubado por um adversário que possui vantagem em tamanho ou força é um cenário mais do que provável. “A probabilidade de você ser colocado de costas contra alguém que é maior ou mais forte é muito alta”, afirma Gracie. Esta afirmação é particularmente importante em uma época em que muitos treinadores se concentram exclusivamente em técnicas de pé, desconsiderando a realidade de que, em um combate real, estar no chão pode se tornar a única opção viável.
O Valor do Trabalho de Guarda
A relevância de trabalhar a posição de guarda, segundo Gracie, é diretamente ligada à história do Jiu-Jitsu brasileiro, que surgiu como uma resposta e adaptação a outros estilos de luta, como o judô e o wrestling. Ele enfatiza que essa posição não foi algum tipo de invenção moderna, mas sim uma técnica venerável que, ao longo do tempo, permitiu que o Jiu-Jitsu provasse sua eficácia em confrontos.
“O conceito de usar a guarda para transformar uma posição desfavorável em uma oportunidade de controle e finalização é o que fez do Jiu-Jitsu brasileiro um verdadeiro fenômeno”, observa Gracie. Essa afirmação é respaldada por estudos que analisam as dinâmicas de força e controle em situações de luta, onde a habilidade de um lutador de se reposicionar ou, mesmo, encontrar maneiras de dominar um adversário maior, é a chave para a vitória.
A Filosofia da Preparação
Outra faceta da defesa de Gracie sobre a prática de puxar para a guarda envolve um aspecto filosófico: a preparação estratégica. Em suas palavras, treinar para lutar eficazmente a partir de uma posição inferior é uma forma de se preparar para diferentes cenários, especialmente em uma luta onde as variáveis podem mudar rapidamente. “A capacidade de trabalhar de costas e utilizar todo o corpo através das pernas é essencial. Essa é a essência da técnica de guarda, que foi passada através dos tempos, desde os guerreiros samurais”, explica Gracie.
O que Gracie está enfatizando é que, longe de ser uma técnica de evitar o combate, puxar para a guarda é uma preparação realista e pragmática para a luta. É um reconhecimento de que as lutas muitas vezes não ocorrem de acordo com os planos ideais e que a adaptabilidade é vital.
Um Olhar Mais Amplo
Embora a controvérsia em torno do “puxar para a guarda” possa parecer um assunto simples, ele toca em questões mais profundas sobre a natureza do combate e o que significa ser um praticante de artes marciais. A análise crítica da guarda e de como essa prática é percebida por pessoas fora do Jiu-Jitsu pode servir como uma lente para discutir a evolução das lutas em geral.
Se um lutador é capaz de usar a guarda para neutralizar um adversário maior e, em seguida, buscar uma finalização, isso não é apenas uma prova de habilidade, mas também um exemplo de como a estratégia e a técnica podem superar a força bruta. Isso nos leva a refletir sobre o que realmente significa domínio em um confronto.
Conclusão
Em última análise, a discussão em torno de puxar para a guarda não é apenas sobre uma técnica específica; é sobre como vemos e entendemos o Jiu-Jitsu e suas aplicações no mundo real. Ralek Gracie, ao defender essa prática, não apenas desafia a visão negativa que persiste entre críticos, mas também nos convida a reavaliar nossas percepções sobre eficácia e auto defesa nas artes marciais. O Jiu-Jitsu, com sua rica tradição de adaptação e estratégia, continua a se estabelecer como uma modalidade que valoriza a técnica e o preparo, mesmo diante da adversidade de lutadores que podem ser mais fortes ou mais jovens. Dessa forma, entender e, por conseguinte, valorizar a prática de puxar para a guarda é fundamental para respeitar toda a complexidade que envolve a verdadeira essência do Jiu-Jitsu.


