Professor, você prefere a técnica do ‘cem-quilos’ ou do ‘side control’?

Professor, você prefere a técnica do ‘cem-quilos’ ou do ‘side control’?

A Evolução Linguística do Jiu-Jitsu: Reflexões sobre a Identidade e a Cultura no Tatame

No cenário vibrante do Jiu-Jitsu brasileiro, muitos aspectos merecem ser examinados, especialmente quando diz respeito à terminologia utilizada nas academias. Em um desses encontros informais que estimulam a sabedoria e a curiosidade, o professor Luiz Dias, um nome respeitado no meio do Jiu-Jitsu, teve uma conversa reveladora em sua academia, a GAS Jiu-Jitsu, localizada no tradicional bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro.

Durante a visita de um amigo ao seu dojo, Luiz foi apresentado a uma nova posição que, segundo seu visitante, poderia ser executada a partir do ‘side control’. A essa declaração, o professor imediatamente questionou as razões pelas quais essa manobra não era denominada pelo seu tradicional nome, "cem-quilos", um termo cuja origem se remonta ao início do Jiu-Jitsu no Brasil, consolidando-se ao longo de quase um século nas academias do país. A falta de uma resposta concreta deixou Luiz refletindo sobre as mudanças linguísticas que vêm ocorrendo no ambiente da arte suave.

O Impacto da Globalização e dos Estrangeirismos

Nos últimos anos, o Jiu-Jitsu brasileiro passou por uma verdadeira revolução linguística, especialmente nas grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Termos que anteriormente eram amplamente conhecidos e respeitados na língua portuguesa agora estão sendo substituídos por palavras em inglês. A transformação é inegável: "gancho" agora está sendo chamado de "hook", "estrangulamento" é frequentemente substituído por "choke", e até mesmo "proteção com as pernas", um conceito simples e claramente definido, foi transformado em "shield". Essa evolução linguística levanta a questão: por que os praticantes e professores optam por adotar esses termos em inglês, mesmo tendo orgulho de sua identidade como praticantes do Jiu-Jitsu brasileiro?

A evolução dos idiomas é um fenômeno natural, influenciado por diversos fatores, incluindo a globalização e a difusão cultural. Entretanto, Luiz expressa uma preocupação legítima sobre o excesso de estrangeirismos que tem permeado o vocabulário dos treinos. Ele argumenta que a adoção de termos em inglês frequentemente ofusca a riqueza da língua portuguesa e a própria cultura do Jiu-Jitsu no Brasil.

O Papel do Professor na Preservação Cultural

Um aspecto crucial que Luiz enfatiza é o papel dos professores como guardiões da cultura e da linguagem no Jiu-Jitsu. Segundo ele, é responsabilidade dos instrutores educar seus alunos não apenas sobre as técnicas e movimentos da arte, mas também sobre a história e a linguagem que perpetuam essa tradição. Ao incorporar termos e expressões locais no treinamento, os professores podem não apenas promover uma melhor compreensão entre os praticantes, mas também fortalecer a identidade cultural do Jiu-Jitsu brasileiro.

É evidente que alguns termos em inglês foram assimilados no Jiu-Jitsu há várias décadas, e a crescente popularização do esporte a nível mundial pode justificar essa fluência em uma terminologia estrangeira. No entanto, o que Luiz aponta é a preocupação de que, ao se afastarem dos termos em português, muitos instrutores estejam contribuindo para uma “pobreza vocabular”. Essa tendência, se não for contida, pode passar de geração em geração, deteriorando a compreensão e a apreciação dos fundamentos da prática.

Um Chamado à Reflexão

Luiz Dias sugere que a discussão sobre essa questão não se limita apenas a um âmbito teórico. Em seu dojo, ele tem incentivado seus alunos a se tornarem mais conscientes do uso da linguagem. A reflexão sobre o uso dos termos é algo que deve ser introduzido nas conversas cotidianas e práticas de treino. Ele é claro ao afirmar que proteger a cultura do Jiu-Jitsu implica não apenas em técnicas de combate, mas também na preservação da sua terminologia e identidade linguística.

O professor doa uma variedade de exemplos para ilustrar sua preocupação. Ele menciona que, se até hoje os praticantes brasileiros continuam a referir-se à queda japonesa como "o-so-togari", é imprescindível que também tenhamos bem definido o que representa um "mata-leão". Esse questionamento ressoa em muitos educadores que se preocupam em manter a essência de suas práticas e o legado cultural de suas artes.

Conexão com a Tradição e o Futuro do Jiu-Jitsu

As ideias de Luiz Dias comunicam um desejo de que a próxima geração de praticantes continue a valorizar e entender a riqueza do Jiu-Jitsu brasileiro, não apenas como uma prática marcial, mas como uma manifestação cultural que deve ser celebrada em sua língua original. Isso pressupõe um compromisso coletivo de todos os envolvidos na arte, desde os instrutores até os alunos.

Ele conclui seu discurso instando a todos que, assim como ele, estejam conscientes e atentos ao que acontece em seus dojôs. "Você também percebe essa avalanche de termos desnecessários?", pergunta Luiz, buscando uma troca de ideias com outros educadores e praticantes. Finalmente, ele encoraja um debate aberto sobre este tema, convidando os interessados a entrar em contato por meio de seu e-mail, geracaoartesuave@yahoo.com.br, para compartilhar opiniões e reflexões.

O Legado do Jiu-Jitsu e a Importância do Vocabulário

O Jiu-Jitsu é muito mais que um mero conjunto de técnicas de combate; é um legado cultural que reflete a história, a tradição e a identidade do povo brasileiro. Em um mundo cada vez mais globalizado, onde a interconexão de culturas é uma realidade inevitável, a preservação do idioma e da terminologia local ganha uma importância imensurável.

Em uma era em que as redes sociais e os meios digitais favorecem o compartilhamento de informações e interações internacionais, Luiz Dias oferece um olhar crítico sobre como essa nova realidade pode, inadvertidamente, abalar os pilares de uma cultura que há muito se estabeleceu. Embora seja compreensível que haja uma troca cultural de ideias e linguagens, essa troca não deve levar à perda da essência do que é praticado nas matrizes do Jiu-Jitsu.

No final das contas, a história do Jiu-Jitsu brasileiro é uma rica tapeçaria tecida com o fio da língua portuguesa. O desafio que se apresenta a todos os praticantes e educadores é encontrar um equilíbrio entre a inovação e a tradição. Ao fazer isso, eles não apenas defenderão sua prática e sua cultura, mas também garantirão que as futuras gerações herdem não apenas as técnicas, mas a linguagem que dá vida a essa arte marcial.

Em suma, a conversação proposta por Luiz Dias é uma chamada à ação. É um convite a todos os praticantes para que estejam cientes da importância da língua que utilizam em seus treinos e da cultura que representam. A preservação do Jiu-Jitsu brasileiro não é apenas uma questão de técnica, mas uma questão de identidade, de história e de pertencimento a uma comunidade que deve continuar a crescer e evoluir, enquanto permanece firmemente enraizada em suas tradições.

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