A Realidade do Assédio no Jiu-Jitsu Brasileiro: Um Estudo Inquietante e Seus Implicações
O Jiu-Jitsu Brasileiro, uma arte marcial reconhecida globalmente por sua eficácia e inclusão, enfrenta um desafio alarmante que questiona a segurança e a integridade de suas práticas. Em um estudo realizado em 2017 pela pesquisadora Maria Munhos, em colaboração com a ESPNW, foram revelados dados chocantes sobre o assédio sexual dentro das academias de Jiu-Jitsu. A pesquisa entrevistou 259 mulheres praticantes e concluiu que 61,6% delas relataram ter sido vítimas de assédio em algum momento durante suas experiências nos tatames. Essa estatística não apenas destaca uma crise dentro da comunidade, mas também levanta questões profundas sobre como a cultura do esporte pode estar facilitando comportamentos inadequados.
O Papel da Confiança e do Contato Físico
O Jiu-Jitsu é uma modalidade que exige um nível significativo de confiança entre os praticantes. A natureza íntima e próxima do treinamento, que muitas vezes envolve contato físico direto, pode criar uma atmosfera onde o assédio é facilmente ignorado ou minimizado. Segundo os dados coletados, mais de um terço das mulheres entrevistadas afirmou ter experimentado assédio por parte de seus instrutores, enquanto mais da metade relatou situações desconfortáveis envolvendo parceiros de treinamento.
Essa dinâmica é particularmente problemática, pois o ambiente de treino deve ser um espaço seguro onde os praticantes se sintam à vontade para aprender e evoluir. Contudo, a entrada de comportamentos predatórios, muitas vezes camuflados como "parte do treinamento" ou "contato acidental", transforma esse espaço em um terreno minado para as mulheres.
Reconhecimento Tardio e o Silêncio das Vítimas
Um dos aspectos mais preocupantes do estudo é a dificuldade em reconhecer o assédio no Jiu-Jitsu, especialmente para iniciantes. Muitas participantes relataram que só anos depois de suas experiências trouxeram consciência ao que vivenciaram como assédio, uma vez que adquiriram conhecimentos técnicos suficientes para perceber que certos contatos eram totalmente desnecessários. Essa falta de clareza é um dos fatores que contribui para o silêncio que permeia a comunidade. Muitas mulheres não relatam os incidentes por não se sentirem seguras ou acreditarem que seus relatos não seriam levados a sério.
Infelizmente, muitas acabam optando por abandonar a prática em vez de buscar justiça, o que indica que o problema não se trata apenas de uma série de incidentes isolados, mas de uma questão sistêmica que afeta a participação feminina no esporte.
Casos Reais e Implicações Legais
As consequências do assédio no Jiu-Jitsu vão além das práticas individuais, estendendo-se ao sistema como um todo. Nos últimos anos, diversos instrutores de renome foram denunciados e, em alguns casos, presos, por comportamentos inadequados que exploravam a vulnerabilidade de seus alunos. Um dos episódios mais notórios envolveu o renomado mestre Ricardo de la Riva, que em 2020 foi acusado pela ex-aluna Claudia Do Val de assédio. Após as acusações, De La Riva fez um comunicado público, informando que não treinaria mais com mulheres, um gesto que, embora possa ser visto como uma tentativa de proteger as próprias vítimas, também levanta questões sobre a eficácia de tais ações.
Além de De La Riva, outros casos, como o Caso Jay Rod, vêm à tona, revelando um padrão preocupante de má conduta sexual que vulnerabiliza as praticantes. Estudos demonstram que o silêncio em torno desses incidentes é comum, e muitos atletas, pressionados pela cultura do "não contar", permanecem calados, enquanto os infratores continuam a operar nas sombras.
A Realidade do Assédio e suas Consequências
Embora a possibilidade de falsas acusações seja frequentemente levantada por aqueles que tentam deslegitimar as vozes das vítimas, investigações indicam que tais casos são, de fato, raros. Em contraste, o assédio sexual continua sendo um problema disseminado e subnotificado. A grande maioria das mulheres que experimentam assédio não procura por punição ou exposição pública; em vez disso, muitas simplesmente decidem se afastar do esporte. Isso perpetua um ciclo vicioso e cria um ambiente hostil para futuras praticantes.
O Jiu-Jitsu foi idealizado com a filosofia de que a técnica e a habilidade podem superar a força bruta. No entanto, quando as mulheres são forçadas a se afastar por conta de assédio, essa filosofia se torna impraticável. Com mais de 60% das mulheres relatando experiências de assédio, está claro que o problema não pode ser ignorado ou minimizado.
Buscando Soluções e um Futuro Mais Seguro
A comunidade do Jiu-Jitsu precisa urgentemente abordar essas questões de forma abrangente. Isso inclui não apenas o reconhecimento dos incidentes de assédio, mas também a implementação de políticas que garantam um ambiente seguro para todas as praticantes. Treinadores e academias devem ser responsabilizados por suas ações e devem ser oferecidos espaços seguros para denúncias, permitindo que as vítimas se sintam apoiadas e ouvidas.
O desenvolvimento de programas de conscientização sobre o que constitui assédio e a construção de uma cultura de respeito e empatia nas academias são passos essenciais para a mudança. Além disso, incentivar diálogos abertos e educar tanto homens quanto mulheres sobre os limites e a responsabilidade no contato físico pode ajudar a criar um ambiente onde todos se sintam seguros para treinar.
Conclusão
É missão da comunidade do Jiu-Jitsu Brasileiro enfrentar essa dura realidade e não apenas reconhecer, mas também trabalhar ativamente para eliminar o assédio sexual dentro das academias. A prevalência do assédio não pode ser tratada como um fenômeno isolado, mas sim como um sintoma de um problema mais profundo que precisa ser abordado com urgência. Para que o Jiu-Jitsu continue a ser um espaço de inclusão e crescimento, a segurança de todos os praticantes deve ser a prioridade. É hora de todos se unirem na luta contra o assédio e assegurar que os tatames sejam um lugar de respeito, confiança e igualdade.


