A Necessidade de Reformas no Atendimento Oftalmológico em Eventos de MMA: Um Olhar Sobre os Riscos Envolvidos
Nos últimos tempos, um tema pouco abordado dentro da comunidade das artes marciais mistas (MMA) começou a emergir com força: a saúde ocular dos lutadores. Tradicionalmente, os problemas relacionados à visão eram uma questão rara e pouco discutida em comparação com as lesões ortopédicas mais frequentes. No entanto, a situação ganhou nova urgência após um incidente envolvendo um dos principais astros do UFC, Tom Aspinall, que expôs a fragilidade dos mecanismos atuais de avaliação e atendimento oftalmológico durante os combates.
Tom Aspinall, atual campeão peso-pesado do UFC, enfrentou seu adversário Ciryl Gane em sua primeira defesa de título em outubro do ano passado. A luta, que prometia ser um marco em sua carreira, terminou abruptamente devido a uma dedada acidental nos olhos que, apesar de não resultar em danos severos às estruturas oculares principais, provocou um complexo quadro de lesões que colocou em risco o futuro do lutador no esporte. As repercussões desse incidente reacenderam a discussão sobre a necessidade de um protocolo aprimorado para garantir a saúde ocular dos atletas.
O oftalmologista brasileiro Dr. Cavalcanti Jr., especialista no tema e responsável pelo cuidado da visão de estrelas como o ex-campeão Charles Do Bronx e a lutadora Norma Dumont, considera que esta é uma oportunidade crucial para implementar uma abordagem mais eficiente. Em uma conversa exclusiva com a equipe da Luta Ag, o médico destacou a urgência de um novo sistema que possibilite a avaliação precisa das condições oculares dos lutadores durante a competição.
"Como amante do esporte e frequentemente atormentado pelas lacunas na assistência ocular durante as lutas, percebo que eventos como o UFC devem evoluir nesse quesito vital. A maioria das lesões observadas no octógono são de natureza ortopédica, incluindo fraturas e cortes. No entanto, lesões oculares, quando ocorrem, podem ter consequências devastadoras, como lacerações, descolamento de retina e, em casos extremos, até cegueira. O exemplo mais marcante é o de Michael Bisping, que sofreu consequências irreversíveis, comprometendo sua carreira. Problemas como edema palpebral dificultam seriamente a avaliação do globo ocular e, portanto, a segurança do lutador", explicou Dr. Cavalcanti.
Proposta de Novo Protocolo
Com a experiência adquirida ao longo dos anos, Dr. Cavalcanti Jr. delineou um novo protocolo com o objetivo de minimizar erros nas decisões médicas em situações de risco ocular durante as lutas. De acordo com seu modelo, a presença de um oftalmologista nos eventos deve ser obrigatória, em conjunto com equipamento de avaliação portátil que permita testes imediatos e eficazes.
"Atualmente, quando um árbitro convoca um médico após um incidente, geralmente é um clínico geral ou um ortopedista que tem apenas cinco minutos para decidir se o lutador pode continuar. Minha proposta envolve um protocolo estruturado, onde o oftalmologista poderia, imediatamente, entrar no octógono para realizar testes práticos e objetivos. Não podemos nos limitar a avaliar apenas um olho; é fundamental realizar uma análise abrangente para evitar diagnósticos precipitados que podem comprometer a saúde do atleta", argumentou o especialista.
Consequências para Tom Aspinall
O caso de Tom Aspinall, sem dúvida, destaca a fragilidade do atual sistema. Após o incidente durante sua luta contra Ciryl Gane, o campeão britânico experimentou uma inflamação no tendão do músculo oblíquo superior, um problema que afetou o movimento sincrônico de seus olhos e resultou em dificuldades significativas, como visão dupla e comprometimento da percepção periférica.
Mesmo que os exames revelassem a ausência de lesões graves nas estruturas centrais dos olhos, o impacto funcional foi significativo e, até o momento, Aspinall tem enfrentado uma batalha difícil para restabelecer completamente sua visão. "Houve uma inflamação no tendão de um músculo responsável por manter o paralelismo dos movimentos oculares. Quando esse músculo não opera corretamente, o resultado é uma visão duplicada. Esta condição leva o cérebro a não utilizar plenamente a visão central do olho afetado, resultando em uma perda progressiva da nitidez. Assim, o futuro da visão de Aspinall está em risco de deterioração", explicou Dr. Cavalcanti.
A situação desenrolou uma onda de preocupação na comunidade do MMA, suscitando questionamentos sobre se Aspinall poderá retornar aos octógonos e quais seriam as implicações a longo prazo dessas lesões. A resposta a essa indagação depende do sucesso dos tratamentos, que incluem potencialmente cirurgias e injeções de corticoides para aliviar a inflamação.
O Que Esperar do Futuro?
A incerteza que envolve o caso de Tom Aspinall levanta um debate mais amplo sobre a segurança dos lutadores e a necessidade de reformas nos protocolos de saúde em eventos de MMA. A situação é particularmente delicada, pois não se trata apenas de um atleta, mas de um símbolo do esporte que representa milhares de jovens e admiradores ao redor do mundo. Dr. Cavalcanti Jr. enfatiza que as medidas paliativas atualmente empregadas são apenas um remédio temporário e que é crítica a implementação de diretrizes robustas que garantam a proteção ocular dos atletas.
"Estamos lidando com um problema raro, mas ao mesmo tempo, estamos assistindo a um desdobramento que pode servir como um chamado à ação. Em seis a doze meses, poderemos ter uma definição sobre a recuperação de Aspinall, mas a realidade é que algo precisa ser feito para agregar valor à segurança ocular dos lutadores", afirmou o médico.
Historicamente, vários lutadores já enfrentaram situações similares, muitas vezes decorrentes de dedadas acidentais durante as lutas. Como resposta, sugestões para modificar as luvas utilizadas pelos atletas foram levantadas, uma proposta que Dr. Cavalcanti acredita ser desnecessária. Em vez disso, ele defende que a transformação deve vir na forma como os cuidados oftalmológicos são prestados.
Avaliação Geral e Conclusão
A situação de Tom Aspinall não é um caso isolado, mas sim um reflexo das lacunas existentes nos protocolos médicos atuais em eventos de MMA. Diante do crescente envolvimento da comunidade de lutadores e profissionais de saúde, a hora é agora para discutir não apenas a segurança ocular, mas também mudanças abrangentes que priorizem a saúde e bem-estar dos atletas. A proposta de um novo protocolo pelo Dr. Cavalcanti Jr. serve como um passo vital em direção a práticas de atendimento mais eficazes, e a implementação de sua visão pode não apenas salvar carreiras, mas também a vida de muitos lutadores.
A comunidade do MMA aguarda ansiosamente por mudanças que possam não apenas resguardar a integridade dos atletas, mas também fomentar um esporte mais seguro e ético para todos os envolvidos. As discussões em torno desse tema, agora acentuadas pela experiência de Aspinall, ecoam a necessidade de uma responsabilidade coletiva em prol da saúde dos lutadores, lembrando a todos que, no coração do MMA, está a luta pela excelência, mas também pela segurança.
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