Kyra Gracie Rompe o Silêncio sobre Assédio no Jiu-Jitsu: Um Clamor por Mudança na Cultura do Esporte
Na recente conversa que teve com o público, Kyra Gracie, uma das mais respeitadas atletas de Jiu-Jitsu do Brasil e do mundo, abordou uma questão delicada e muitas vezes ignorada: o assédio que enfrentou ao longo de sua carreira e como essa cultura tóxica ainda afeta mulheres no Jiu-Jitsu brasileiro na atualidade. Este depoimento, carregado de emoção e importância, marca um momento significativo no contexto da luta por igualdade de gênero no esporte.
Um Encontro Perturbador
Kyra, que se aposentou das competições há alguns anos, revela que, quando era apenas uma adolescente de 18 ou 19 anos e já se destacava como atleta, vivenciou um episódio particularmente alarmante. Durante uma abordagem por parte de um homem mais velho, que se apresentou como alguém interessado em patrocinar sua carreira, a jovem ficou paralisada. “Imagino que você esteja fodido dentro do meu quimono Keiko”, foi o comentário dele, que a deixou em choque. Ela descreve o momento como um divisor de águas em sua vida, evidenciando o descompasso que existe entre o mundo das competições e a segurança das atletas.
“E essa garota era eu”, refletiu Gracie, que não apenas congelou diante da situação, mas também enfrentou uma série de encontros indesejados e invasivos por parte do mesmo homem. “Quando eu estava em eventos, ele aparecia. Eu me esconderia, congelaria de novo… Ele estava errado, mas fiquei em silêncio. E guardei isso até agora porque o ambiente, infelizmente, silencia muito as mulheres”, desabafou.
O Pesado Legado Familiar
Um dos pontos mais contundentes que Kyra trouxe à tona foi a falsa percepção de que seu sobrenome – Gracie, um dos mais emblemáticos no Jiu-Jitsu – lhe oferecia alguma forma de proteção em um ambiente que, como ela revelou, se mostrou hostil. “Muita gente pensa que por ser da família Gracie, estou protegida, né? Tantos tios, primos, faixas pretas. Mas passei por muitas situações constrangedoras, situações de assédio, e tenho certeza de que se eu não fosse da família Gracie seria muito pior”, admitiu com franqueza.
Esse depoimento não se refere apenas a experiências pessoais, mas sim a um panorama geral da situação que as mulheres enfrentam dentro do universo do Jiu-Jitsu e, possivelmente, em diversas outras modalidades esportivas. Para Kyra, a cultura de assédio não é um caso isolado; é um problema que está intrinsecamente ligado ao sistema. “O assédio que acontece nos bastidores com mulheres e meninas não é uma exceção. É um problema em todo o sistema. Faz parte da cultura do Jiu-Jitsu e está sendo passado de geração em geração. Presenciei centenas de casos e durante muito tempo tive medo de falar”, afirmou.
Uma Nova Geração e um Futuro Melhor
Agora, como mãe de filhas pequenas, Kyra expressou sua preocupação com o ambiente no qual suas crianças poderão crescer. “Eu não queria que minhas filhas crescessem no mesmo ambiente em que cresci”, revelou. Essa afirmação sublinha um desejo comum entre os pais que aspiram a um futuro melhor, livre de abusos e discriminação para seus filhos.
Diante dessa realidade, Gracie não se limita a relatar suas experiências; ela agora chama a comunidade do Jiu-Jitsu para uma tomada de responsabilidade coletiva. “A mudança no nosso esporte começa agora, com a verdade, com a união, com a responsabilidade de toda a comunidade. Homens e mulheres. Estamos cansados. Quantas mulheres abandonaram o Jiu-Jitsu por causa disso? Mas não podemos mais ficar em silêncio. Não ficarei mais em silêncio. Informe e não omita. Essa mudança está em nossas mãos”, concluiu.
O Papel das Mulheres no Jiu-Jitsu
Com o testemunho de Kyra, torna-se evidente a necessidade de se criar um espaço seguro e acolhedor para as mulheres no Jiu-Jitsu. A luta contra o assédio vai além das palavras; envolve gestos concretos e políticas que promovam o respeito e a igualdade de gênero. O primeiro passo para essa transformação é o reconhecimento do problema e a disposição de enfrentá-lo de maneira integral.
Recentemente, iniciativas têm sido criadas dentro da comunidade do Jiu-Jitsu para tratar essas questões. Alguns mestres e academias têm promovido workshops sobre respeito e ética, destacando a importância de construir um ambiente mais seguro para todos os praticantes. Contudo, a mudança cultural é um processo lento e demandará o comprometimento de todos os envolvidos.
Reflexões e Conclusões
O desabafo de Kyra Gracie é apenas uma das inúmeras histórias que precisam ser ouvidas e compreendidas para que haja uma transformação real no cenário do Jiu-Jitsu. As histórias de assédio e discriminação não devem ser ignoradas, pois são reflexos de um problema mais amplo que permeia a sociedade. Tal como acontece em muitos outros esportes, o Jiu-Jitsu também precisa confrontar suas sombras para que as mulheres possam praticar com dignidade e respeito.
A luta de Kyra e de tantas outras mulheres deve inspirar não apenas atletas, mas também dirigentes, treinadores e praticantes a trabalharem juntos por um futuro mais justo. A mudança começa com a disposição de falar e agir. É um chamado à ação – para que todos, independentemente do gênero, se unam em prol de um esporte mais inclusivo e seguro.
O papel da comunidade é fundamental para garantir que as vozes silenciadas pelo medo encontrem liberdade para se manifestar e que o respeito e a dignidade prevaleçam no tatame. O quanto antes essa transformação cultural se concretizar, mais mulheres poderão desfrutar do Jiu-Jitsu sem medo de serem silenciadas ou assediadas. Assim, o esporte pode se tornar um verdadeiro espaço de igualdade e respeito, em que todos os atletas possam treinar, competir e, sobretudo, se sentir seguros.


