A Realidade do Jiu-Jitsu Moderno: O Descompasso entre as Técnicas em Pé e o Jiu-Jitsu de Solo
O renomado instrutor de Jiu-Jitsu, John Danaher, recentemente levantou um ponto crítico sobre uma das realidades mais angustiantes do Jiu-Jitsu contemporâneo. Segundo ele, muitos atletas de elite, que alcançaram a excelência no tatame, demonstram habilidades consideravelmente limitadas quando se encontram na posição em pé. Essa discrepância, que pode parecer surpreendente, tem raízes profundamente enraizadas nas abordagens de treinamento e nas dinâmicas do esporte.
O Crescente Predomínio da Guarda
À medida que as competições de Jiu-Jitsu evoluem, observa-se uma tendência cada vez mais comum entre os lutadores, que optam por puxar para a guarda em vez de se engajar ativamente na luta por quedas. Essa escolha estratégica, por evidente que seja, levanta questões sobre o desenvolvimento integral dos atletas. Danaher destaca que essa situação tem gerado uma geração de lutadores que, embora sejam excepcionalmente habilidosos no solo, apresentem fragilidades alarmantes no confronto em pé.
“A esmagadora maioria dos jogadores experientes de Jiu-Jitsu são simplesmente incompetentes na posição em pé”, afirma Danaher, sublinhando a gravidade da situação. A dependência excessiva da guarda, ao invés de uma luta equilibrada entre as disciplinas de pé e no solo, pode estar minando o potencial de muitos lutadores.
O Ensinamento das Quedas: Uma Análise Crítica
O problema começa, segundo Danaher, com a forma como os treinadores se aproximam do ensino da trocação. Em vez de desenvolver uma abordagem única e adaptada às nuances do Jiu-Jitsu, muitas academias simplesmente imitam técnicas de disciplinas como luta livre e judô, sem considerar as especificidades que tornam o Jiu-Jitsu uma arte marcial única.
“Técnicos e atletas de Jiu-Jitsu têm observado outros estilos de luta que têm uma forte ênfase na posição em pé e nas quedas e usam a abordagem muito ingênua de apenas copiar e colar”, critica Danaher. Essa prática, embora superficialmente lógica, ignora fatores fundamentais que regem o Jiu-Jitsu, ratificando a necessidade de uma metodologia adaptativa e inovadora.
O Princípio das Regras: Uma Diferença Essencial
É verdade que judô e luta livre produzem artistas de quedas excepcionais. No entanto, Danaher argumenta que a simples replicação desses estilos é problemática e pode ser contraproducente. Ele enfatiza que, no Jiu-Jitsu, as regras estabelecem um marco diferente para recompensas e penalidades.
“No Jiu-Jitsu, a menor queda vale o mesmo que a maior queda e, uma vez finalizado o arremesso, a luta está apenas começando”, explica. Isso implica que os lutadores que se expõem a riscos na busca por uma queda mais impactante podem ser punidos, uma dinâmica que não prevalece nas outras modalidades.
Danaher argumenta que, enquanto no judô e na luta livre, quanto mais risco se corre, mais pontos se ganha, no Jiu-Jitsu o oposto é verdadeiro. “Se você se arrisca ao expor as costas, você está sendo punido por correr o risco”, enfatiza.
A Escolha Estratégica do Atleta
Se o retorno pela execução de uma queda é limitado, como ocorre no Jiu-Jitsu, e o risco inclui a possibilidade de se expor a finalizações, Danaher argumenta que não é surpreendente que os atletas escolham o caminho da puxada para a guarda. Esse raciocínio pragmático reflete a adaptação do atleta às regras do jogo, mas também ilustram um ciclo vicioso que pode prejudicar a evolução da arte marcial.
“Não podemos ter situações em que os campeões saiam correndo e fiquem sentados porque literalmente não conhecem uma única queda”, ressalta Danaher, expressando sua preocupação com o futuro do esporte.
Uma Abordagem Distinta para o Jiu-Jitsu
Danaher não está propondo uma cópia direta do judô ou da luta livre, mas sim a criação de um estilo de quedas que seja intrinsecamente apropriado para o Jiu-Jitsu. “O Jiu-Jitsu busca quedas que exibam controle ao invés de amplitude. Quedas pequenas e de baixa amplitude que permitem terminar em posição dominante são muito mais apropriadas para o atleta de Jiu-Jitsu do que quedas grandes e arriscadas de alta amplitude”, defende.
Esse argumento convoca uma reflexão sobre as práticas de treinamento atuais e a necessidade de adaptação às realidades específicas de cada disciplina. A ideia é desenvolver técnicas que se ajustem às características e estratégias do Jiu-Jitsu, permitindo que os atletas não apenas se sintam mais confortáveis em pé, mas também que possam transitar eficientemente entre a luta de pé e o solo.
A Urgência de Mudar Paradigmas
Portanto, ao analisarmos a fala de Danaher, fica claro que o Jiu-Jitsu contemporâneo se encontra em um ponto crucial. A desconexão entre os estudos de quedas e a prática real do combate em pé é uma realidade que não pode ser ignorada. O apelo do especialista é pela evolução contínua da prática, promovendo um engajamento mais equilibrado nas posições de pé, sem perder de vista a essência do Jiu-Jitsu.
Evidentemente, isso exigirá um esforço conjunto de atletas, técnicos e federações, numa busca por um entendimento mais profundo da arte marcial que vai além das técnicas tradicionais. O caminho para isso não é simples, mas é absolutamente necessário se o esporte quiser continuar a crescer e se desenvolver, aproveitando todo o seu potencial tanto em pé quanto no tatame.
Assim, o chamado de Danaher serve não apenas como uma crítica às práticas atuais, mas também como um convite a um novo entendimento do Jiu-Jitsu. Um Jiu-Jitsu que seja integral, que compreenda e valorize as nuances de cada posição, e que prepare os atletas para todos os aspectos da luta, criando um ambiente mais inclusivo e dinâmico para todos os praticantes.
Em conclusão, enquanto o Jiu-Jitsu atravessa esse momento de reflexão, a esperança é que os treinadores e atletas se inspirem nas palavras de Danaher, levando essa arte marcial a um novo patamar de excelência, onde o domínio em pé seja tão valorizado quanto a maestria no solo, criando assim um futuro mais promissor para todos os que se dedicam a essa nobre prática.


