A Transformação do UFC: Meritocracia ou Entretenimento?
Islam Makhachev, um dos principais lutadores do UFC e campeão do peso leve, levantou uma questão intrigante que ecoa nas discussões sobre as diretrizes da organização: até que ponto o UFC prioriza o entretenimento em detrimento da meritocracia atlética? Em uma era em que a emoção das lutas parece contar mais do que as vitórias em si, Makhachev se mostra crítico em relação ao que considera ser uma tendência de valorização de lutadores que performam bem em termos de espetáculo, mesmo que não tenham um histórico de vitórias impressionantes.
Recentemente, a liga de artes marciais mistas, conhecida por sua competitividade extrema, viu cortes de atletas que apresentam recordes notáveis de triunfos, mas que, segundo as análises, não entregam combates espectaculares. Exemplos como os lutadores Rinat Fakhretdinov e Martin Buday, que foram desligados da franquia, destacam essa nova realidade. Para Makhachev, o que conta não é apenas ganhar, mas como se ganha. A busca por uma performática mais vibrante na arena MMA parece imperar, levando a uma reavaliação das carreiras de lutadores que, apesar de suas habilidades inegáveis, não conseguem prender a atenção do público.
O Novo Panorama Competitivo
O surgimento de figuras proeminentes como Usman Nurmagomedov e Islam Makhachev em um cenário pós-Khabib Nurmagomedov frequentemente mantém o foco em estilos de luta que, embora eficazes, não encantam as massas. O domínio posicional, característico desse tipo de abordagem, muitas vezes é percebido como uma "tática" que não ressoa com a plateia. Em uma entrevista ao canal ‘Ushataika’, Makhachev declarou:
"Já falei para a galera, vocês têm que ir lá e brigar. Aqueles lutadores do Daguestão que só aparecem, dominam todo mundo, não falam inglês, não vendem a luta, não exageram em nada; acho que esse tipo de lutador não é mais interessante para o UFC."
Segundo ele, a indústria parece assimilar que a cultura da luta e o entretenimento caminham em direções diferentes do que, até então, presumia-se ser a base do sucesso dentro da organização. Lutadores que insistem em um estilo de luta mais tradicional, focado em técnica e controle, correm o risco de ser deixados de lado em favor daqueles que são mais vocais, carismáticos e dispostos a promover os próprios combates.
Makhachev também compartilhou uma observação sobre a mentalidade da organização ao afirmar:
“O que eles querem é basicamente uma vibe do tipo luta de rua, alguém que simplesmente aparece e derruba. Alguns caras perdem 6 ou 7 lutas, mas continuam arrumando lutas porque vão lá e brigam todas as vezes, ganhando ou perdendo. Não vou citar nomes, mas um dos executivos do UFC me disse que eles têm caras assim.”
Essa declaração lança luz sobre um cenário que é tanto fascinante quanto preocupante. A ideia de que o UFC pode estar se afastando do que considero ser um dos fundamentos do esporte — a excelência competitiva — para abraçar um modelo mais voltado para o “show business” pode gerar um efeito dominó em relação a como talentos emergentes são percebidos e como se desenvolvem no futuro.
A Ascensão de Ian Machado Garry e o Impacto do Treinamento
Enquanto isso, a divisão dos meio-médios, onde nomes como Ian Machado Garry começam a se destacar, passa por um momento decisivo. Garry, lutador que vem despontando como um forte candidato ao título dessa categoria, decidiu se isolar nas montanhas do Cáucaso para treinamentos especializados. A estratégia, que visa potencializar suas habilidades, sinaliza um reconhecimento crescente de que ele precisa estar em seu melhor estado para enfrentar o domínio de Makhachev e outros lutadores da divisão.
Contudo, Makhachev minimizou a importância do treinamento de Garry na Geórgia, sugerindo que mudanças táticas ou melhorias em habilidades não são suficientes para contrabalançar a experiência que ele acumulou ao longo de sua carreira. Em uma declaração, Makhachev afirmou:
"Na Geórgia, ele provavelmente vai melhorar em algumas áreas. Lutei durante toda a minha vida, não apenas dois ou três meses, então não me importo mais com isso."
Esse ceticismo quanto ao impacto do treinamento intensivo de Garry reflete uma confiança que Makhachev possui em seu próprio arsenal de habilidades, bem como uma crítica à abordagem que alguns atletas tomam em busca do aprimoramento. A ênfase em estratagemas rápidas e a crença de que treinos expedientes podem mudar o jogo são adequadas, mas não suficientes segundo ele.
Historicamente, muitos lutadores tentaram “pular” etapas cruciais de preparação. A comparação direta das experiências de treinamento, especialmente com adversários que já vivenciaram altos e baixos de uma trajetória profissional plena, pode ter um peso muito significativo nas lutas. Um exemplo claro disso foi a tentativa de Charles Oliveira, que trouxe um lutador da seleção iraniana para suas preparações, mas que, de acordo com Makhachev, teve “efeito zero”.
A Luta pela Identidade do Esporte
O que essas discussões revelam é uma crise de identidade não apenas no UFC, mas na própria filosofia que envolve as artes marciais mistas. As expectativas em relação ao que um lutador deve ser e como deve se apresentar vêm mudando, moldadas por exigências comerciais, que parecem ancestrais à luta em si. O dilema que enfrenta lutadores técnicos e estratégicos versus aqueles que parecem mais focados em vendas e marketing representa uma bifurcação onde, de um lado, há a busca pela excelência esportiva e, do outro, o chamado pelo entretenimento.
Enquanto muitos fãs desejam ver a brutalidade e a adrenalina das trocas de socos, outros defendem a arte e a técnica que vem com o aprimoramento metódico de um lutador. Essa luta interna entre o velho e o novo é uma porção do que torna o UFC tão dinâmico, mas também tão controverso.
Um exemplo interessante pode ser visto na ascensão de lutadores que talvez não teriam uma chance em um passado recente. Com a mudança de foco, é possível que talentos que não supõem ser os mais emocionantes, mas que vencem consistentemente, encontrem portas fechadas, enquanto outros, que apenas "lutam" como crianças em uma disputa de rua, continuem garantindo oportunidades na organização.
O Futuro do UFC e da Meritocracia
Em resumo, a declaração de Makhachev destaca uma tensão palpável na cultura do UFC. Com a tendência crescente de priorizar o espetáculo sobre a performance atlética, a integridade do esporte — e a trajetória dos lutadores que nele competem — entra em uma nova dimensão de incerteza. O resultado pode levar a uma diluição de um dos esportes mais rigorosos e técnicos do mundo, transformando-o potencialmente em uma forma mais leve de entretenimento.
À medida que o UFC avança sobre este cenário tumultuado, a pergunta permanece: até que ponto as audiências estarão dispostas a sacrificar a profundidade técnica em troca de um produto mais "palatável"? Na busca por um espetáculo que atraia atenções, o UFC está, potencialmente, moldando o futuro de um esporte que, em sua essência, foi sempre baseado em meritocracia e habilidade.
A articulação entre performance e entretenimento está longe de ser uma estrada de mão única, e a direção futura do UFC poderá influenciar não apenas o futuro de seus atletas, mas também a evolução das artes marciais mistas em sua totalidade. As próximas batalhas dentro do octógono — tanto em termos de competições quanto de dinâmica organizacional — serão cruciais para estabelecer o que realmente define sucesso nesta era do MMA. Assim, o papel de lutadores como Makhachev será não apenas de competidores, mas também de críticos e, quiçá, futuros reformadores do sistema.


