A Nova Abordagem do Jiu-Jitsu: Ffion Davies Desafia o Medo como Estratégia de Vendas
Nos últimos anos, o Jiu-Jitsu, especialmente entre as mulheres, tem sido frequentemente promovido por meio de narrativas que enfatizam o medo e a necessidade de autodefesa. A ideia de que a prática da arte marcial se resume a uma preparação para situações de intimidação e ataque é uma estratégia comum nas campanhas de marketing, que visam atrair novas praticantes. No entanto, essa abordagem é contestada por Ffion Davies, uma reconhecida campeã galesa do ADCC (Abu Dhabi Combat Club), que recentemente expressou sua visão sobre o tema durante uma participação no popular podcast de James Smith.
Davies, destacando a sua experiência dentro e fora do tatame, argumenta que essa perspectiva é prejudicial e cria expectativas distorcidas sobre o que é realmente o Jiu-Jitsu e sua aplicação no contexto da violência real. "Não gosto da narrativa de que as mulheres deveriam começar como uma forma de autodefesa", afirma. "Se alguém tentar me atacar, vou tentar fugir. Não estou tentando descartar ninguém." Essa declaração é, na verdade, um convite à reflexão sobre a verdadeira essência do Jiu-Jitsu, que, segundo ela, se sobrepõe à ideia de serem meras ferramentas de sobrevivência em situações de perigo.
O Jiu-Jitsu como Esporte
Para Ffion Davies, o Jiu-Jitsu deve ser compreendido primeiramente como um esporte. Essa afirmação não diminui a eficácia das técnicas de grappling em cenários do dia a dia, mas aponta para o fato de que o verdadeiro valor da arte marcial vai muito além de habilidades defensivas. “Nas redes sociais, vejo constantes comentários sobre como as técnicas que demonstramos em competições não funcionariam fora da academia”, disse. “Eu entendo essas críticas, mas não as encaro como algo negativo. Estou praticando um esporte divertido onde ficamos deitados no chão.” Essa visão ressalta a desconexão entre a prática esportiva e as expectativas irrealistas que podem ser criadas em torno do Jiu-Jitsu.
A presença de mulheres no Jiu-Jitsu é um tema de alta relevância, especialmente em um ambiente tradicionalmente dominado por homens. Davies compartilha sua própria jornada, refletindo sobre as experiências iniciais que caracterizam a entrada de muitas mulheres no esporte. “Para muitas de nós, a experiência não é tanto sobre sentir-se pertencente desde o início; é, na verdade, uma batalha para ser aceita.” Ela menciona casos em que, para não serem excluídas, as mulheres se sentem pressionadas a rir de piadas sexistas e a provar que estão ali com as “intenções certas”, embora essa pressão muitas vezes desafie suas próprias convicções.
A Realidade Social da Prática Feminina
Para compreender a experiência das mulheres no Jiu-Jitsu, é necessário explorar a dinâmica social que permeia as academias de luta. No ambiente dominante masculino, muitas mulheres se deparam não apenas com a necessidade de provar suas habilidades, mas também com dilemas emocionais que podem vir à tona. Essa realidade é marcada por um constante esforço para se impor em uma cultura que, embora progressivamente menos hostil, ainda apresenta seus desafios. A luta é, muitas vezes, tanto interna quanto externa, conforme as praticantes tentam encontrar seu espaço em um mundo que ainda possui estruturas patriarcais.
A Nova Narrativa do Jiu-Jitsu
Davies acredita que o Jiu-Jitsu deveria ser promovido pelas suas qualidades intrínsecas: a competição, a aprendizagem e o prazer que proporciona aos seus praticantes. Para ela, a ênfase em cenários negativos, que muitas vezes servem como um despertar do medo, não é a abordagem correta para atrair novos adeptos. “Eu gostaria que a narrativa fosse diferente, que as pessoas pudessem ver o quanto isso é divertido e uma maneira de se conectar com outras pessoas. Não é apenas sobre o medo do que pode acontecer, mas sobre as alegrias e os desafios que o esporte proporciona”, ela enfatiza.
Essa mudança na maneira como o Jiu-Jitsu é apresentado poderia não apenas enriquecer a experiência dos novos praticantes, mas também contribuir para uma cultura mais inclusiva e positiva dentro das academias. A abordagem de Davies sugere que, ao invés de incentivar a prática por meio do medo, os instrutores e as academias poderiam se concentrar nas oportunidades de crescimento pessoal, desenvolvimento físico e, fundamentalmente, na camaradagem proporcionada pela prática do esporte.
Conclusão
Ffion Davies, com sua perspectiva inovadora, estabelece um precedente importante no entendimento do Jiu-Jitsu, especialmente para as mulheres. Através de sua voz, ela não só desafia a narrativa do medo como ferramenta de marketing, mas também propõe um modelo mais saudável e atrativo para a prática esportiva.
À medida que continuamos a explorar o potencial pleno do Jiu-Jitsu, é essencial que as novas narrativas sejam moldadas por experiências que não apenas envolvam a autodefesa, mas que também celebrem a camaradagem, a competição e a diversão que a prática pode oferecer. Ao fazer isso, conseguimos criar um ambiente mais acolhedor e inclusivo, que incentiva tanto mulheres quanto homens a se juntarem ao tatame, não apenas como lutadores, mas como colegas e amigos.
Com a necessidade de redefinir como o Jiu-Jitsu é percebido, a atitude de Davies representa uma lufada de ar fresco em um mundo saturado de medos e inseguranças, mostrando que a verdadeira força pode ser encontrada não apenas na defesa, mas também na alegria de praticar uma arte que, acima de tudo, é sobre conexão e crescimento.


