Espaço é inviável; manutenção se torna um luxo fora de cogitação

Espaço é inviável; manutenção se torna um luxo fora de cogitação

O Fechamento do Combat Base: Um Marco na História do Jiu-Jitsu Americano

Em um desfecho que marca o fim de uma era no mundo do Jiu-Jitsu americano, o Combat Base, conhecido por ser um dos espaços de treinamento de base mais influentes da Califórnia, fechou oficialmente suas portas. O icônico dojo, situado em uma garagem modesta sob a direção de Chris Haueter, realizou seu último tatame aberto no dia 18 de janeiro. Este espaço, que por 21 anos serviu como um coração pulsante de autenticidade e comunidade na prática do Jiu-Jitsu, foi muito mais do que uma simples academia.

Um Legado que Começou em uma Garagem

Criado por Haueter, uma das primeiras doze pessoas a receber a faixa preta no Jiu-Jitsu brasileiro nos Estados Unidos, o Combat Base começou em 2005 após um modesto investimento em tapetes. A ideia era transformar a garagem da casa da família em um espaço para treinamento, algo que, à primeira vista, parecia pequeno e não convencional. "Normalmente ficamos bem apertados na garagem," comentou Eddie Cairns, um praticante regular que se juntou a Haueter em 2008. "É um espaço de artes marciais DIY, e é por isso que é tão icônico."

Haueter, que começou a treinar seu Jiu-Jitsu em 1988 e alcançou a faixa preta em 1996, viu sua garagem se transformar de um local de treino modesto para um dos dojos não comerciais mais significativos culturalmente do Jiu-Jitsu americano. O espaço, que em um primeiro momento era um local para algumas duplas de atletas, eventualmente se expandiu para acomodar até seis pares de lutadores ao mesmo tempo, simbolizando o crescimento da comunidade que se formou ali.

Gentrificação: Um Desafio Econômico

A decisão de encerrar o Combat Base foi ligada a uma realidade econômica que, infelizmente, muitos espaços comunitários enfrentam. O fechamento tornou-se inevitável após a venda da propriedade na Avenida D, um imóvel que pertenceu à mãe de Chris, Judith Haueter, que faleceu em outubro do ano anterior. "Estamos aqui em Redondo Beach, e há um recurso limitado chamado praia," explica Haueter em um podcast. "A longo prazo, sabia que os terrenos se tornariam valiosos, e esses 21 anos foram uma luta constante contra a gentrificação."

A transformação do bairro, que evoluiu de um local com desmanches para um mercado imobiliário em ascensão, tornou financeiramente inviável a continuidade do dojo. O preço das casas na região disparou, com propriedades anteriormente acessíveis agora sendo vendidas por cerca de 3 milhões de dólares. Haueter observa: "Se conseguíssemos manter esse espaço, teríamos um bom pé-de-meia ou seríamos gentrificados."

O Dilema de Abrir uma Academia Comercial

Embora os Haueters tenham considerado a possibilidade de abrir uma academia comercial tradicional, descobriram que isso não era viável financeiramente. Os custos operacionais se mostraram proibitivos. "Abrir uma escola exigiria que abríssemos mão de muitas das outras coisas que Chris faz," relatou Melissa Haueter. "Os números simplesmente não fechavam."

Com a necessidade de atrair centenas de alunos pagantes para lidar com o aluguel exorbitante, o espaço simples e autêntico que eles haviam criado já não parecia sustentável. O Combat Base operava em um modelo não convencional, hospedando cerca de vinte praticantes regulares, muitos dos quais eram faixas pretas, e funcionava principalmente como um ambiente de tatame aberto para convidados.

“Neste momento, sinto que não tenho vontade de pagar para ir trabalhar. Sou pago para trabalhar, e não pagarei para ir trabalhar,” lamentou Haueter, refletindo sobre a realidade triste enfrentada.

Uma Comunidade Íntima e Cuidada

As sessões de treinamento no Combat Base eram realizadas três vezes por semana — às terças, quintas e domingos — atraindo tanto locais quanto profissionais viajantes. A filosofia do espaço era clara: "Usamos o jiu-jitsu para ajudar a melhorar a vida das pessoas," explicou Melissa. Isso fomentou uma cultura baseada em confiança e respeito mútuo, criando um ambiente no qual qualquer atleta poderia treinar sem medo.

"Você não pode entrar em qualquer tatame e sentir 100% seguro de que as pessoas estão lá para cuidar de você. Mas eu poderia dizer que isso era verdade aqui," complementou Haueter, refletindo sobre o ambiente acolhedor que prosperou na garagem.

Com o tempo, o Combat Base recebeu ilustres seminários e visitas de figuras notáveis do universo do Jiu-Jitsu, como Clark Gracie, Jeff Glover e Renato Laranja. A garagem se tornou um ponto de encontro para praticantes de todo o mundo, trazendo uma diversidade incrível para o pequeno espaço.

Transformações Pessoais e Histórias de Vida

No entanto, o Combat Base era muito mais do que um lugar para treinar; era um santuário para muitos. Wesley Nash, que cresceu a poucos passos do dojo, conta como encontrou um caminho em sua vida que antes parecia sem saída. Após ser expulso da escola, Nash se dedicou intensamente ao treinamento no Combat Base, reestruturando sua vida e se formando, finalmente, como um médico socorrista do condado de Los Angeles e portador da faixa preta de terceiro grau.

"É uma pena que esteja fechando," disse Nash durante a reunião de despedida, "mas, como um amigo uma vez me disse, nada dura para sempre. Esse lugar significa muito para mim."

Eddie Cairns também expressou sua gratidão: "Sou residente vitalício e posso afirmar que a garagem foi de extrema importância para a comunidade. Muitas vidas foram salvas pela hospitalidade de Melissa e Chris."

Um Legado que Não se Apaga

Embora o fechamento do Combat Base represente a perda de um espaço físico significativo, Haueter possui uma visão optimista para o futuro. "Sei que todas as coisas chegam ao fim. Mas através de tudo isso surge um novo crescimento. Vejo isso como uma oportunidade, não como um problema," disse ele, refletindo sobre o caminho à frente.

O Combat Base Club continuará a existir de forma online, e Haueter permanecerá ativo no circuito de seminários de Jiu-Jitsu, mantendo a chama da comunidade acesa, mesmo à distância. Além disso, um ex-participante do dojo, Kyle Thompson, está se preparando para abrir um novo espaço em uma antiga barbearia em Torrance Boulevard, garantindo que a tradição do Combat Base continue viva de alguma forma.

Assim, enquanto o prédio que abrigava o Combat Base possa ter se fechado, o impacto que ele teve sobre a vida de tantas pessoas e a cultura do Jiu-Jitsu na América perdura, lembrando a todos que os verdadeiros valores deste esporte estão além das paredes físicas – são as vidas que ele transforma e as conexões que constrói ao longo do caminho. O legado do Combat Base viverá, não em forma física, mas em cada atleta tocado por sua filosofia única e sua profunda conexão com a comunidade.

Deixe um comentário