A Importância de Respeitar os Limites Durante o Treinamento: Uma Reflexão Sobre o Jiu-Jitsu
O Jiu-Jitsu é uma arte marcial rica em história e técnica, com raízes que remontam ao Japão e que foram adaptadas e popularizadas no Brasil. Contudo, a evolução dessa disciplina não veio sem seus desafios, especialmente quando se trata do treinamento e da segurança dos praticantes. Através de uma experiência pessoal, é possível refletir sobre algumas das questões mais críticas que envolvem a prática dessa arte, em particular o impacto de egos, a pressão do desempenho e a importância de respeitar os limites físicos durante os treinamentos.
Durante o passado, a escola de Jiu-Jitsu muitas vezes carecia de um sistema formal de instrução. Assim, muitos praticantes, como eu, se viam em busca de alternativas para aprimorar sua técnica. A minha escolha foi o judô, treinando na Universidade da Colúmbia Britânica (UBC). Ao contrário de muitos academias que priorizavam o trabalho em pé (tachiwaza), a UBC dedicava metade do tempo de suas aulas ao newaza, ou trabalho no chão. Essa escolha me proporcionou uma base sólida e um progresso considerável, mesmo que, à época, estivesse aprendendo principalmente com imagens de competições e algumas instruções informais.
O que aconteceu em um desses treinos, no entanto, foi um episódio que ficou gravado na memória e tem relevância para todos que praticam artes marciais. Em uma noite, a UBC recebeu uma equipe universitária de judô do Japão. Desde o início, ficou claro que estávamos lidando com atletas extremamente habilidosos. Enquanto a primeira metade da prática foi dominada pela habilidade dos visitantes em controle de pegadas, a segunda parte do treino trouxe uma reviravolta.
Transitando para o chão, os judocas mostraram-se claramente menos confortáveis. Nesse ambiente, aproveitamos nossas habilidades para aplicar finalizações com mais facilidade do que esperávamos. Porém, o que se seguiu nesses momentos de tensão foi chocante e gerou discussões profundas sobre a cultura do treinamento e o papel do respeito mútuo no tatame.
Os visitantes interpretaram a diretriz de seu treinador de não “bater” até que uma finalização estivesse prestes a causar dano, de forma literal. Isso levou a uma série de lesões desnecessárias, como um armlock que, sendo aplicado com cuidado, acabou resultando em um estalo alarmante no braço de um dos judocas. Por mais que houvesse um espírito competitivo e um desejo de testar suas habilidades, o custo foi alto: pelo menos quatro atletas acabaram sentados à margem, segurando seus próprios braços em dor, enquanto a prática seguia.
Esse incidente carregou uma lição amarga. A proteção do ego de um treinador, ou a pressão de não querer mostrar fraqueza, tinha resultado em ferimentos que afetariam o desempenho desses atletas tanto a curto quanto a longo prazo. No curto prazo, uma lesão pode interromper o treinamento e prejudicar o progresso individual. A longo prazo, o que poderia ser um leve desconforto poderia transformar-se em uma dor constante e crônica, contribuindo para problemas de saúde significativos à medida que envelhecemos.
É importante refletir sobre as motivações que estão por trás dessas decisões no tatame. O que significa realmente “vencer” em um ambiente de treino? Vale a pena arriscar a integridade física em troca de um resultado temporário? Quando estamos tão focados em não “bater”, devemos nos perguntar: estamos priorizando nosso desenvolvimento pessoal ou o ego dos outros?
O dilema é exacerbado em competições, onde a pressão de vencer pode criar uma atmosfera que inibe a comunicação aberta e objetiva sobre lesões e limites. A cultura do "não bater" tem raízes profundas na competitividade das artes marciais, uma mentalidade que se estende desde o dojo até as competições. No entanto, devemos tomar cuidado para não confundir a bravura com a imprudência.
A Necessidade de Uma Mudança Cultural no Treinamento
Essa reflexão não se limita apenas a mim ou àquela noite fatídica, mas sim a uma conversa mais ampla sobre as normas que cercam o treinamento de artes marciais. A mudança de mentalidade, promovendo um ambiente onde os praticantes se sintam à vontade para bater quando necessário, é crucial. Isso significa educar tanto instrutores quanto alunos sobre a importância do respeito aos limites do corpo e à comunicação durante a prática.
Ser capaz de “tapar” cedo e frequentemente não é uma sinal de fraqueza, mas sim uma demonstração de autocuidado e inteligência. O conceito de “tap out” deve ser visto como uma forma de proteção, não apenas para evitar lesões, mas também para garantir que todos possam continuar a treinar e competir por anos a fio. Sacrificar um membro por um prêmio – seja um troféu ou um ego inflado – é um preço muito alto a se pagar.
O Papel dos Treinadores e da Comunidade
Os treinadores desempenham um papel fundamental na formação dessa cultura. Eles devem liderar pelo exemplo, encorajando seus alunos a priorizarem sua saúde e bem-estar, muitas vezes em detrimento de uma vitória passageira. Isso inclui a promoção de uma comunicação clara sobre técnicas, limites pessoais e a importância do “tapar” quando necessário.
Além disso, promover um ambiente de treino saudável e respeitoso é uma responsabilidade coletiva. As academias devem incentivar diálogos abertos sobre lesões e desconforto, criando um espaço onde os praticantes possam ser honestos sobre suas limitações. Somente assim será possível cultivar uma cultura que não apenas valoriza a técnica, mas também respeita a integridade física e os limites dos atletas.
Conclusão
Refletir sobre as experiências no tatame e os dilemas que surgem durante o processo de aprendizado trouxe à superfície questões essenciais sobre segurança, ego e a verdadeira essência do treinamento em artes marciais. O Jiu-Jitsu e o judô, como muitas outras artes marciais, são mais do que simples competições; eles são caminhos de aprendizado, autoconhecimento e respeito mútuo.
Na busca pela melhoria técnica, nunca devemos perder de vista a importância fundamental de cuidar de nós mesmos e dos nossos colegas. O ato de “tap out” não é um sinal de fraqueza, mas sim uma escolha sábia. Quem toca vive para treinar outro dia. Assim, é vital que todos os praticantes, sejam novatos ou veteranos, façam dessa mentalidade parte de sua filosofia de treino, garantindo que a arte que amam continue a prosperar de forma segura e saudável para todos os envolvidos.


