Ffion Davies discute Jiu-Jitsu como ferramenta de defesa pessoal: “É um esporte divertido, não um botão de pânico”

Ffion Davies discute Jiu-Jitsu como ferramenta de defesa pessoal: “É um esporte divertido, não um botão de pânico”

Ffion Davies: A Nova Voz do Jiu-Jitsu e a Crítica ao Marketing de Medo

No mundo do Jiu-Jitsu, uma prática que mescla arte marcial e esporte, Ffion Davies tem se destacado não apenas por suas habilidades e conquistas no tatame, mas também por sua visão crítica sobre a forma como a defesa pessoal é promovida, especialmente entre mulheres. A lutadora galesa, que está prestes a participar da luta pelo título do UFC em março de 2026, posiciona-se abertamente contra o que define como "marketing de academia movido pelo medo", um conceito que rotineiramente utiliza cenários aterradores para atrair novos praticantes.

O Marketing do Medo e a Defesa Pessoal

Em sua participação no podcast de James Smith, Davies expressou seu descontentamento com a narrativa predominante que sugere que mulheres devem se engajar em artes marciais puramente como uma forma de autodefesa. Segundo ela, essa abordagem não apenas distorce a natureza do esporte, mas também alimenta uma mentalidade negativa que pode afetar a confiança das mulheres. "Não gosto da narrativa de que as mulheres deveriam começar a treinar apenas para se proteger", declarou. "Se alguém tentar me atacar, eu vou correr primeiro. Não estou tentando derrubar ninguém".

Essa visão é particularmente significativa em um cenário onde, frequentemente, as academias promovem suas aulas com base em histórias de ataques violentos ou potenciais ameaças, fazendo o marketing parecer mais uma armadilha emocional do que um convite genuíno para o aprendizado e a prática do Jiu-Jitsu. A presença constante de zingers sobre "estranhos assustadores" e a ideia de que as mulheres precisam de habilidades específicas para sobreviver a possíveis situações de violência (como o clássico "carona assustador") é algo que Davies quer ver erradicado.

Desmistificando o Jiu-Jitsu

Para Davies, a simplificação excessiva dos benefícios do Jiu-Jitsu não ajuda ninguém. "As pessoas gostam de comentar meus vídeos e dizer que isso não funcionaria na rua. Eu estou tipo, eu sei. Estou praticando um esporte divertido onde ficamos deitados no chão". Essa observação destaca a desconexão entre o estilo de vida esportivo e as situações de conflito real. O Jiu-Jitsu esportivo envolve um conjunto de regras e estratégias que, embora valiosas, podem não se traduzir diretamente em um cenário real de autodefesa.

Além disso, a lutadora menciona a pressão adicional que muitas mulheres sentem em salas de treinamento predominantemente masculinas. Ao contrário do que muitos imaginam, a experiência inicial pode ser menos sobre "encontrar sua tribo" e mais sobre "descobrir como sobreviver socialmente". "É como uma questão de sobrevivência. Tenho que rir das piadas sexistas para ser aceita. Tenho que provar que estou aqui com as intenções certas", afirma Davies.

O Sentido da Comunidade

O ambiente do Jiu-Jitsu, ainda dominado por homens, cria uma dinâmica que pode ser desafiadora para as mulheres. Embora não se deva generalizar e afirmar que todas as academias são tóxicas, o que Davies descreve é uma realidade que muitas lutadoras enfrentam: a necessidade de demonstrar que estão comprometidas e sérias sobre sua prática, enquanto seus colegas homens muitas vezes são aceitos sem a mesma tensão.

Ela menciona que seminários de Jiu-Jitsu podem ser particularmente estranhos, pois algumas pessoas encaram as sessões de aprendizado como testes de valor pessoal. "Tivemos o que chamamos de ‘Ballgate’, um incidente que passou dos limites e que realmente expôs a necessidade de algumas academias se adaptarem e se modernizarem", relembra Davies.

A Importância do Treinamento Realista

Outro ponto crucial levantado por Davies é a crítica à promessa dada por muitos cursos de autodefesa que vendem um "hard de habilidades" em um curto espaço de tempo. "Você não pode aprender defesa pessoal em um curso de uma semana, isso é mentira". Essa afirmação reflete uma preocupação crescente sobre a eficácia e a honestidade dos programas que buscam treinar as mulheres em um espaço de tempo limitado, sem a preparação adequada.

Em vez disso, Davies defende que as mulheres devem aprender os fundamentos necessários para se desvencilhar de situações perigosas, priorizando a fuga sobre a luta. "Quebrar apertos e fugir" é seu conselho prático, enfatizando que a defesa pessoal deve ser uma questão de estratégia e não de bravura sem sentidos.

O Grande Momento de Ffion Davies

Agora, em um momento que pode redefinir sua carreira, Ffion Davies está se preparando para suas próximas grandes lutas. Scheduled para o dia 12 de março de 2026, ela competirá na disputa pelo cinturão vago do peso galo do UFC, enfrentando a talentosa Cassia Moura, de apenas 19 anos. O potencial para uma vitória não apenas eleva sua carreira, mas também ecoa sua mensagem sobre a verdadeira essência do Jiu-Jitsu: treinar por amor ao esporte e pela busca de evolução pessoal, e não pelo medo.

Caso vença, Davies não só se tornará uma campeã reconhecida, mas também uma voz forte contra a narrativa de autodefesa que tem permeado o campo das artes marciais. Se perder, sua mensagem será ainda mais poderosa: as mulheres não precisam de uma narrativa de pesadelo para justificar a prática de um esporte que pode ser tanto uma paixão quanto uma ferramenta de autoconfiança.

Uma Nova Perspectiva sobre o Jiu-Jitsu

Por fim, Ffion Davies representa uma nova geração de lutadoras que buscam alterar a forma como o Jiu-Jitsu é percebido e praticado. Ela encoraja tanto mulheres quanto homens a se envolverem com o esporte pelo prazer e pelo desejo de melhorar suas habilidades, e não pelo medo. "Treine porque você gosta, porque quer competir, porque gosta de melhorar. Se os benefícios de autodefesa vierem com isso, ótimo – mas não tema a taxa de inscrição", conclui.

Assim, a jornada de Ffion Davies vai além do tatame. Ela é uma voz necessária que desafia convenções antiquadas e promove uma visão mais inclusiva e positiva do Jiu-Jitsu, uma arte marcial que, ao seu ver, deve ser abraçada como uma forma de expressão, esporte e, em última análise, uma celebração da força e da resiliência humana, independentemente do gênero. Neste contexto, sua próxima luta não representará apenas uma nova chance de vencer um título; será também um passo importante em direção à mudança de mentalidade em um ambiente que ainda luta contra as sombras de um passado agreste.

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