Estudo Revela Que 61,6% das Mulheres Praticantes de Jiu-Jitsu Sofreram Assédio

Estudo Revela Que 61,6% das Mulheres Praticantes de Jiu-Jitsu Sofreram Assédio

Estudo Revela Prevalência Preocupante de Assédio no Jiu-Jitsu Feminino no Brasil

Um estudo abrangente sobre o assédio enfrentado por mulheres no ambiente do Jiu-Jitsu brasileiro trouxe à tona números alarmantes que exigem uma reflexão profunda por parte das academias de luta e da comunidade em geral. Com base em entrevistas realizadas com 193 praticantes, a pesquisa revela que impressionantes 61,6% das mulheres já foram vítimas de assédio durante o treinamento. Este dado, que ecoa uma realidade amarga, destaca um padrão de comportamento que, muitas vezes, é minimizado ou ignorado dentro das artes marciais.

A Base de Confiança Atrasada

O Jiu-Jitsu, uma arte marcial reconhecida por exigir confiança e respeito mútuo entre praticantes, fundamenta-se na aceitação de limites – os alunos concordam com a violência simulada, reconhecendo que devem interromper a prática ao sinal de dor ou desconforto. Contudo, a presença de assédio moral e sexual neste ambiente não apenas fere essa confiança, mas também corroí o espírito de camaradagem que é tão fundamental para a prática do esporte.

A pesquisa recente, que reflete um cenário preocupante, também alude a estudos anteriores que indicam que 50,4% dos casos de assédio reportados foram cometidos por parceiros de treino, enquanto 34,1% tiveram como perpetradores os próprios instrutores. Essa intersecção entre intimidade e autoridade no ambiente de treinamento se torna um terreno fértil para o silêncio e a impunidade, criando um ciclo de desconforto que muitas vezes se perpetua.

A Normalização do Assédio

Um dos principais achados do estudo é a normalização do assédio dentro da cultura do Jiu-Jitsu. Piadas sexistas e comportamentos inapropriados são frequentemente tratados como "conversas de vestiário", levando as vítimas a internalizar a ideia de que seus incômodos são exagerados ou irrelevantes. Essa normalização cria um ambiente hostil e retira a voz das vítimas, fazendo com que relatar experiências de assédio pareça não só difícil, mas também socialmente desaconselhável.

Além disso, as dinâmicas de poder na relação treinador-aluno, onde o instrutor muitas vezes ocupa uma posição de autoridade inquestionável, agravam ainda mais o problema. O medo de retaliações – que poderia incluir a perda de oportunidades de treinamento e progressão nas artes marciais – silencia as vítimas, levando muitas a mudar seus horários de treinamento ou até mesmo a trocar de academia como forma de evitar o assédio.

Necessidade de Políticas Claras

Diante de tamanha gravidade, as academias têm a obrigação de criar e implementar políticas claras de prevenção e resposta ao assédio. Até que ponto a falta de regulamentação e supervisão adequada é uma co-participante neste cenário? As academias não devem mais se contentar em pensar se o assédio acontece, mas sim avaliar se existem protocolos eficazes para lidar com ele.

Os pesquisadores enfatizam a importância de um código de conduta que estabeleça regras explícitas sobre o que constitui assédio e quais serão as consequências decorrentes de quaisquer infrações. Essa abordagem não é apenas benéfica, mas essencial para mudar a cultura dentro das academias. Implementar canais de denúncia que não repassem diretamente à hierarquia de poder comum aumenta a confiança e garante que as vozes das vítimas sejam ouvidas e respeitadas.

Estratégias de Prevenção

As soluções propostas para mitigar o assédio vão além da criação de políticas: cada academia deve promover um ambiente de respeito e segurança. O assentimento deve ser um princípio ativo no treinamento – instrutores e colegas devem ser incentivados a buscar consentimento explícito antes de aplicar ajustes em técnicas ou posições.

Além disso, é crucial que todos os indivíduos em um ambiente de treinamento sejam considerados como parte de uma rede de apoio. Os colegas de treino têm a capacidade de servir como a linha de defesa mais rápida contra comportamentos inadequados, permitindo que comportamentos sutis, mas problemáticos, sejam abordados antes que se tornem incidentes mais sérios.

O Novo Padrão para Academias

Assumir uma postura proativa ajuda a definir um novo padrão para o que configura uma "boa" academia de Jiu-Jitsu. Uma instituição não é definida apenas por suas práticas de treinamento, mas também pela maneira como trata os seus membros em situações delicadas. Assim, as academias devem demonstrar eficácia ao lidar com limites e garantir que os participantes tenham a segurança de relatar comportamentos inadequados sem medo de retaliação.

Por fim, o estudo traz uma mensagem clara e direta: 61,6% não é apenas um número – é um chamado à ação. Para que o Jiu-Jitsu continue a crescer e a se diversificar, especialmente em termos de inclusão de mulheres, o silêncio não pode ser mais um plano de segurança.

A necessidade de estruturas que protejam e respeitem cada praticante é urgente. Se a comunidade do Jiu-Jitsu brasileiro deseja que todas as mulheres se sintam bem-vindas e seguras nos tatames, deve priorizar a criação de um ambiente que valorize a segurança, a igualdade e o respeito. Nessa corrida pela justiça e pela inclusão, cada um deve fazer o seu papel: denunciar, apoiar e, mais importante, criar espaços que reflitam as melhores qualidades de uma comunidade que deve ser unida e solidária.

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